
O projeto Mulheres Híbridas, das Caixeiras cia. de bonecas, com condução de Daiane Baumgartner, reuniu doze mulheres artistas do DF. Tive a sorte de participar desse encontro criativo e afetivo que visava a criação de doze bonecas híbridas, também chamadas de boneca vestível, boneca habitável ou boneca geminada. Nesse estilo, partes da boneca se acoplam diretamente ao corpo da atriz, que, por sua vez, empresta partes suas, dando a ilusão de ser um único corpo. Confeccionar uma boneca híbrida é um processo de criação exigente, em termos técnicos e emocionais, sobretudo por envolver a reprodução do real, afinal o boneco precisa parecer humano para favorecer o hibridismo, o que envolve manejo adequado das ferramentas. E, depois de pronta, vem a manipulação da boneca, processo também complexo.
No primeiro dia de imersão, cada uma de nós recebeu um cubo de espuma, demarcando o início da gestação do ser que já habitava lá dentro. O primeiro desafio foi esculpir, seguido da apuração da sensibilidade para perceber a melhor ferramenta (tesoura ou estilete), o melhor jeito de segurar, a força adequada na mão, a proporção e a simetria do rosto… Tudo isso acorda o perfeccionismo e um certo medo do fracasso, ao mesmo tempo em que a criatividade pede flow e convida a se deixar levar e acolher o que surge. Ou não, quando brigamos com o que aparece impondo controle no lugar de fluidez. Nós vivemos uma mistura de tudo isso. Mas, ao mesmo tempo, e sem que nos déssemos conta, estávamos criando um espaço seguro e amoroso entre mulheres. Foi possível falhar e ter suporte, pedir ajuda e receber, colaborar no nariz de uma, no olho de outra, ouvir uma solução bacana, enfim. Pudemos trocar gentilezas e cuidado, tornando o processo menos doloroso.
Criar uma obra pessoal estando num espaço coletivo também foi um privilégio que tornou possível ter suporte e companhia numa viagem criativa que é muito íntima. Paralelamente aos processos pessoais, acompanhávamos as alegrias e sofrimentos de cada artista diante daquela parição lentíssima. Assim como eu, a maioria não tinha ideia do que iria criar. Eu só tinha um vislumbre: um ser que transita entre a terra e o universo, com uma compreensão privilegiada e um distanciamento amoroso em relação às dores humanas. Mas à medida que a espuma foi se moldando, muitos rostos surgiram. O primeiro foi um ET que curti até perder o sentido, mas que me mostrou que eu gostava mais de sobrepor a espuma, colando pedaços do que esculpindo.
Terminada a primeira imersão, passamos um mês com aquele rosto de espuma que se metamorfoseava a cada pequena intervenção. Alarguei o rosto e uma mulher negra e forte apareceu, pedindo alargadores, cabelos longos e dreds. Mexi no nariz e surgiu um homem bravo. Ao brincar com perucas, veio a jovem rebelde emburrada, saída de um filme pós-apocalíptico, com óculos na testa pedindo piercings e tatuagens. Senti necessidade de um semblante mais sereno e amigável e decidi mudar a boca em busca de um leve sorriso. Não consegui, mas a face neutra também fazia sentido. A segunda e última imersão trouxe o desafio de cobrir a espuma com malha favorecendo a semelhança com a pele humana. Sinto que fomos todas um tanto mais fundo nessa fase, onde ficamos mais vulneráveis, e justamente por isso ganhamos mais intimidade – com a gente mesmo, entre nós e com as bonecas.
Cada ser ia nos mostrando quem era, especialmente após a feitura dos olhos – espelho da alma. Sem a minha intenção, a maquiagem finalizou um rosto andrógino. Gostei da surpresa que não sei definir em termos de gênero, só sei que elu não fala, apenas dança – sua linguagem é o movimento lento, o tempo estendido, o espaço preenchido de presença. Como no poema A Hospedaria, de Rumi, “Ser humano é como ser uma hospedaria onde todas as manhãs há uma nova chegada. (…) Seja grato a quem vier, porque todos foram enviados como guias do além”. Sou grata por essa visita permanente.
Durante todo o processo, de forma intuitiva, usei uma metodologia pautada no desvio do complicado, buscando sempre o mais fácil e evitando tensões. Nos momentos onde o processo criativo travava, me dava pausas, ia bater papo com as mulheres e voltava mais leve. Embora os momentos custosos tenham acontecido, houve regulação emocional e prevenção do estresse, o que ajudou a manter o lúdico, o prazeroso e o confortável. Me dei conta de passos mais leves. Outro achado importante, já que há algum tempo minha atuação como arteterapeuta tomou à frente do trabalho de atriz, foi a reaproximação com a criação cênica de um jeito leve, o que me conta que é hora de mover essa dinâmica. Sem dúvida, o suporte do coletivo de mulheres favoreceu tudo isso e me mostra mudanças importantes no meu jeito de lidar. Um espaço de cuidado e segurança é sempre berço e amparo para as nossas preciosidades.
Arte transforma, cura, aproxima, incomoda, angustia, sensibiliza, acorda. As intervenções públicas, parte do projeto, nos possibilitaram brincar juntas com nossas bonecas, onde, os olhos fascinados do público, só reafirmaram o poder e a necessidade da arte e da poesia no dia a dia. Teatro é território de exploração de nossas humanidades. Como artistas, trazemos à tona achados profundos, imagens potentes, movimentos necessários. Como reflexo do inconsciente, cada um daqueles doze cubos de espuma guardava todas as possibilidades. Deles, podia sair uma infinidade de seres. No entanto, cada uma de nós, esculpiu a imagem que precisava existir, de Ex sistir, estar fora de – um aspecto nosso externalizado, com o qual agora é possível dialogar. A boneca, arquétipo pessoal vivo, vem nos contar seus/nossos segredos.
Boneque me conta, aos poucos, como quer se mover, o que envolve a escuta do meu próprio corpo e delu e de sua poesia. A animação da boneca híbrida não é fácil e a artista precisa administrar a brincadeira cênica com o que é possível para o seu corpo. Envolve um profundo diálogo entre corpo e mente, e pede presença . Enquanto matéria e veículo de expressão, o corpo estabelece um limite bem concreto à pulsão criativa, de modo que exercitar e expandir as possibilidades de manipulação é parte importante do processo. Além disso, no teatro de animação, a presença real e a personalidade do ator dão lugar ao protagonismo do objeto ou do boneco inanimado. Essa invisibilidade e recolhimento da personalidade em prol de uma persona é um processo bem interessante que abre muitas possibilidades de investigação artística e pessoal. Emprestamos anima (alma ou psique) para essas “criaturas do além”, e em troca elas se mostram medicinas poderosas evocando a presença plena, além de nos cederem pedaços seus.
Que pedaços são esses? O que eles agregam ao nosso corpo? Onde começa um corpo e termina o outro? O ET, a mulher forte, o homem bravo e a jovem rebelde são partes de boneque e de mim? Como boneca vestível, quem veste quem? Como boneca habitável, quem habita quem? O que elas vieram nos contar? E nossos corpos, o que contam sobre esse encontro? Que terceiro corpo é esse que se faz da junção de dois? Como favorecer o hibridismo reforçando a ilusão de que somos um só corpo? Quais as possibilidades de jogo e interação com o público?
O futuro é feito de pesquisa, experimentação e descobertas. Livres e juntas, nossas bonecas nos informam que agora fazemos parte de um coletivo de híbridas mulheres-boneca.
Evoé!
Anasha Gelli

